04 Outubro 2009

Palavra Seca




Eu toquei a nota e o silêncio da música,
Já vi a tinta, mas esta borrou em meus dedos.
Conheci o grafite e também o carvão.
Mas era desafino para os ouvidos outros.

E acabei no rabisco, na palavra mal feita
E me conformo com o que sei fazer
Pois faço através e para os outros,
Para olhos distantes, e presentes,
Para o conhecido e o sem nome.

E eu não aprendi a usar a borracha
Meus erros e acertos ficaram registrados
Da letra A ao Z. E agora, quem for conviva
Quem se alegrar ou padecer, que se sirva.

Está aí, aquilo que se perdeu
Nas cordas vocais e que se achou
Por entre a dobra dos dedos.
Feito qualquer sumo que se produziu
E que escorreu pela pele.


Imagem: Google. Autor desconhecido.

16 Setembro 2009

Abismos


Qualquer vez dessa,
Vai acabar sendo de vez.
Abismo já não tem limite:
Engole meus passos
E a planta dos meus pés.

Quer seu sobrenome
Em meu próprio nome,
Mas eu não nasci Jerônimo,
E nem aprendi com Pai Inácio
A enganar os precipícios.

Abismo casou com a Gravidade
E tiveram Altura e Profundidade.
Duas irmãs que sempre,
Sempre, devolvem o olhar
Que se joga doutros olhos.

Mas eu sei é que um abismo
Em outro se encontra.
E se uns e outros se atraem
É por conta dos abismos
Dentro de si mesmos...


Imagem: Abismos. Autor: Desconhecido
Fonte: Google.

05 Setembro 2009

Decadência


Para todo universo há o seu verso
Que acaba no encontro do reverso.
Entre o céu e a terra há as estrelas.
Brilham, mas decaem na gravidade.
E a sorte da leveza acaba no peso.

Para toda a fala há o que se cala,
Para as palavras, o esquecimento.
A folha de papel termina no fogo
E as cinzas na dissipação do vento.

Para a árvore há o fio do machado,
A madeira é consumida na chama,
E queima sem saber que já se apagou.
Pois se destina ao fogo: vento, água
Terra, e o que se deixou consumir.

Até o ferro se carcome na ferrugem,
Enquanto o Tempo devora seus filhos
E também as colunas de mármore.
Já o relógio, há o atraso das horas.

Para a música há o eco do silêncio,
Notas um dia encontram o desafino,
Cordas se partem na própria tensão
E para os dedos, a rigidez da artrose.

Para os jovens, as rugas da velhice.
Aos sentimentos, o inicio e o fim
No encontro e no desencontro da pele,
Naquilo que se acha e depois se perde.

Dos amantes, segue o rompimento.
Ao amor: tempo, distância, ingratidão
E a troca por uma ilusão ainda maior.
E assim, está a vida para seu destino.

É a natureza final e inicial das coisas,
Uma peça de teatro onde se apresenta
O diálogo entre cadência e decadência.
E cada um conhece seu derradeiro ato.
Imagem: Saturno devorando seus filhos - Goya.

22 Agosto 2009

Canção Distante



Fiquei sim, pelos trastes
Enquanto meus pensamentos
Enrolavam-se nas volutas.
Através deste braço longo,
Vi sobre o espelho de ébano
Cinco dedos de um sentimento.

Não sei quais foram as cordas
Pois de já passou para
Re-fazendo de Si uma frase
Para quando o Sol sustenir.

É tão só quanto uma nota
Sincopada pelo compasso,
Enquanto este violão preto
Canta numa voz branca.

Nunca vi esta canção
Quando de olhos abertos.
E nunca ouvi estes dedos
Quando ainda desperto.

Parece assim tão estranho
Escutar uma antiga música
E se ouvir através dela.
Vejo que tudo é tão longe
E em mim parece tão perto.




15 Agosto 2009

Cinza



Sei que em cada cigarro, fica algo aqui
E sei mais ainda que em cada fumaça
Algo vai embora, e não mais volta.

Assim, vejo neste vapor que ascende
Todo um emaranhado de palavras
Que eu não consigo traduzir...
Mas entendo do jeito com que sinto.

Que dizer daquilo que não se toca,
Não se entende, e quando sente
Vem, e na mesma hora vai embora?

Parece que o não entendido
Dá a forma apenas para gerar mais
E mais incompreensão...

Pelos pensamentos somos traídos
Pelas palavras somos traídos
Pois no desentendimento de si
Menos se compreende do outro.

O branco da fumaça encontrou
O vermelho de meus olhos,
E o cigarro encontrou seu fim,
Mas não a cinza incompreendida
Que ficou dentro de meu peito.

06 Agosto 2009

Medusa




II

Cinco da manhã. O sol não nasceu,
Enquanto o sono paria seu marasmo:
Havia estátuas com rosto de bonecas
Bonecas de pedra num chá das cinco.

Eram damas de companhia, bacantes,
Empanturrando-se de vinho tinto.
E era você uma vez mais, Medusa
A dançar sobre meus sonhos febris.

Tão cheia de nudez no caminhar
E de malícia nos olhos embebidos.
E mais uma, duas, três estátuas
Vinham satisfazer seus desejos.

Cada rodopio seu foi uma sentença
Esquecida de liberdade. Lembras?
-A folha colhida pela mão do vento
Não é mais livre da que ficou na árvore.

E eu deixei todas as minhas folhas
No serpentear de teus cabelos,
E você Medusa, me deixou o silêncio
De um dia que custou amanhecer.

Seis da manhã. O sol mal apareceu.
E não adiantou passar a noite em claro.
Medusa, eu notei que este espelho
Só reflete a estátua que agora sou.